Crónica de São Manços - 'LIDE'


Aplicar um sentido real a uma obra nem sempre é fácil. Transparecer de forma inequívoca vários compostos desse sentido pode categorizar-se como sucesso, mas adicionar-lhe emoção e uma dose máxima de querer e poder é atingir o regozijo. 

Lidar um toiro é algo complexo. Lidar implica sítio, implica labor e conhecimento, lidar implica recursos quando se espera ou não. A lide, na sua acepção máxima, é simplesmente reconhecível. 

Por norma, gosto de ter uma base para compor as minhas crónicas, abordando de forma gradual os aspectos que se evidenciam na corrida, mas gosto mais quando há algo nas corridas que me faça mudar esse espectro. Tal como numa lide, necessitam-se recursos para escrever uma crónica, e sair de um padrão devido a algo importante que tenha acontecido é de louvar.

Aproximava-se a corrida do intervalo quando, dos chiqueros da praça de toiros de São Manços saía com ímpeto um Lampreia de pelagem negra, comprido e largo, 625Kg de Toiro. Chato de início, sem fixação, incomodativo e exigente. Sentia-se bem nos sítios onde podia apertar, e várias vezes perseguiu e empregou-se com casta, com falsa e modéstia bravura. 
A meses de se tornar profissional, Luís Rouxinol Jr. deu lição do que é lidar e tourear um toiro. Nos compridos foi interpretando a conduta do animal que tinha pela frente, sem lhe exigir em demasia, para nos curtos concentrar em si e no Douro a atenção de todos aqueles que entenderam a sinfonia. O primeiro curto resultou infeliz, abrindo em demasia o quarteio, mas o que se seguiu foi digno de registo. Em crescendo, e com as ganas necessárias ao estímulo de competição e rivalidade, meteu o lampreia a seguir com codícia o estribo do palomino, que aguentou barbaridades, sem toques e por vezes templando a desconcertante investida do toiro. Em tábuas e nos médios, foi dotando o toiro da fijeza que não ostentara e os dois últimos ferros foram de grande nota, e o palmo superior, cobrando com verdade e muita qualidade. 


A corrida culminou com um toiro bem feito de Veiga Teixeira, 560Kg, que teve directrizes de manso. Pouco maleável, foi um toiro que revelou indiferença e pouco fundo. Rouxinol Jr. porfiou para que o resultado fosse diferente, mas não houve junção entre os dois protagonistas. Com o Amoroso não deixou memória, e com o Átila foi-se confiando de maneira crescente, e o último curto é de nota positiva. 

Marcos Bastinhas encabeçava o competitivo cartel montado em São Manços. Ganas e vontade de chegar ao público foram notórias, mas faltou o essencial. 
Abriu praça diante um Teixeira com 570Kg, noblón e bondoso, meteu a cara a gosto no capote, mas nunca rompeu. De início andou disperso, comportamento revelado por praticamente todo o curro... Será necessária tanta gente na trincheira?
Marcos foi de mais a menos, e os compridos resultaram com melhor qualidade que a série de curtos, faltando ajuste no embroque. 
O quarto da tarde pedia uma versão melhor de Marcos Bastinhas, mas que em São Manços não se patenteou. 
Animal de imponente aparato, com 630Kg e que ficou por ver. Por mais que uma vez tomou a iniciativa de partir recto e com alegria, franco e com som, embora no final as características se tenham dissipado. Ao toureiro de Elvas voltou a faltar ortodoxia na cobrança das sortes, leviano em demasia e revelando inconstância, embora agradando ao conclave com um par de qualidade, a boa recordação que deixou na vila alentejana.


O segundo Lampreia da tarde tinha um cara bonita, de pelagem castanha, algo culipollo e com proeminente murrillo. Foi um toiro informal, a revelar disposição de início e som no momento da cravagem dos ferros, contudo, os médios foram-se apoderando das suas condições. Miguel Moura oscilou momentos de mérito e boa intenção, mas sempre que optou pelo câmbio não logrou efectividade, ora por adiantar tempos no câmbio, ora por a investida do toiro sair descomposta. Antes do palmo com que encerrou a prestação, cravou um grande ferro, sofrendo um toque pelo risco e frontalidade da sorte.
O quinto Teixeira da tarde tinha cara de senhor impostor, mas não chegou a romper. Com 620Kg bem distribuídos, investiu com uma classe e recorrido no capote de nota altíssima, destacando uma das primeiras abordagens ao capote, levando a cara bem humilhada ainda antes do peão de brega lhe echar o voo, metendo os rins e empurrando;
Miguel Moura selou prestação regular, de pouca dinâmica e sem romper. Tal como acontecera no primeiro do seu lote, houve capotes em abundância, e ainda que o toureiro tenha estado num tom agradável, não houve click.


No que respeita à forcadagem, competição e rivalidade em disputa de prémio... e os da casa revelaram superioridade.

Pelos Amadores de Évora Dinis Caeiro esteve elegante e senhor no cite, com o toiro no bolso, mandou-o sair quando quis, e efectivou um intento de muita qualidade; Rui Gomes consumou à quarta, em que algumas lacunas se verificaram nas ajudas; Ricardo Sousa apenas no quarto intento conseguiu ficar estável na cara do toiro, tentativa em que o grupo não deu veleidade.


O Grupo da casa venceu, justamente, o prémio em disputa para melhor Grupo em Praça.
Representado a jaqueta dos Amadores de São Manços, o cabo, João Fortunato pegou com garbo e poder o primeiro, muito bem ajudado na primeira tentativa; Jorge Valadas pegou à segunda o quarto, que tinha poder mas não suscitou grandes problemas; O jovem José Quintas esteve decidido com o duro sexto, que embora sem ter cabreado muito, tinha poder na investida, sendo o grupo fundamental para fechar com mérito à segunda.


Os três toiros de Veiga Teixeira revelaram distintas matizes, mas um fundo parecido e no global com mais que tourear do que o que foi visto na realidade. Com bom tipo, hechuras e boa conformidade para o requerido. Houve qualidade a espaços no capote, ainda que no cavalo nenhum toiro tenha revelado um comportamento de nota salutar. 


Da divisa Alentejana de António Lampreia saíram três toiros de imponente aparato morfológico, com menos tipo, mas que revelaram características de interesse. Destaque para o quarto toiro, que teve espontâneas e enraçadas arrancadas, mirando com fijeza e alegria o cavalo, e ainda que tenha diminuído com o decorrer da lide, ficaram detalhes por ver e analisar.

O Domingo de Ressurreição em São Manços foi dia quente, de calor abrasador e mau estar para quem comprou entrada para o sol, ainda que isso não tenha sido impeditivo para a boa moldura humana que a José Jacinto Branco albergou (cerca de 2/3).
A corrida foi dirigida por Agostinho Borges e abrilhantada com a qualidade habitual da banda de Nossa Senhora de Machede, tendo os prémios, e justamente, sido atribuídos a Luís Rouxinol Jr. (melhor lide) e Amadores de São Manços (melhor grupo em praça).

Pedro Guerreiro
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