Crónica de Cuba: 'Um sabor meio agridoce, meio sem sabor'


Dia 1 de maio. Este ano, para além de 'Dia do Trabalhador', calhou ser dia da Mãe...
Começou maio, a primavera já desponta em força e a cíclica rotina taurina tende a intensificar-se.
Um dia típico primaveril, de temperatura agradável e condições essenciais à realização de um espectáculo taurino. Neste dia registaram-se apenas dois, um em Cuba e outro em Vila Franca de Xira, separados por uma distância bem considerável. Virtude não suficiente para a cada vez mais degradada e a carecer de cuidados Arena Multiusos de Cuba albergar um maior número de público, na tarde em que se homenageou um toureiro da terra.
Sejamos francos... O cartel não reunia um interesse suficientemente forte a outro desfecho que o perspectivado, e aqui há também reparos que urgem colmatar. Uma praça, onde praticamente não houve sector sombra, de terceira categoria, um cartel a carecer de algo verdadeiramente aliciante, não pode praticar o tipo de preço que hoje esteve em vigor. É impensável, e insustentável para a grande maioria da aficón que habita na castiça vila alentejana... 1/4 de público, o triunfalismo viral que normalmente está patente nestas 'andanças'.


Lidaram-se toiros de duas divisas: Silva Herculano e Cunhal Patrício.
Os provenientes da Herdade dos Valhascos, que se lidaram na primeira parte, estavam escorridos de carnes e pouco sobrados de força, com destaque para o 'berrendo em negro' que abriu praça. De Cunhal Patrício destaca-se a presença e seriedade dos três toiros, com reforçada nota positiva para o lidado em quinto lugar, de boa conformação, com tranco e transmissão.


O veterano João Moura abreviou as suas duas actuações de forma sucinta e pouco susceptível a momentos de verdadeiro regozijo. Com o Silva Herculano que abriu praça, nobre e voluntarioso, andou num registo idêntico e sem romper, obtendo maior vistosidade com os momentos procedentes à ferragem, carecendo quase sempre do auxílio da sua quadrilha para a colocação dos toiros para a sorte. Se no primeiro os 'peões de brega' deram um 'empurrãozinho', no segundo só faltou terem eles cravado também. O Cunhal Patrício que abriu a segunda metade da corrida era sério, 'acapachado' e reunido. Revelou-se demasiado 'parón' e nem sempre facilitou a tarefa de Moura. A ferragem da ordem foi cumprida com efectividade mas sem lugar a notas de salutar.


20 anos depois... O cubense José Soudo apresentou-se à afición da sua terra na data em que se cumpre o vigésimo aniversário da sua alternativa.
Toureiro afastado há muito de planos como o de hoje, com uma carreira curta e de memória escassa para a grande parte dos aficionados.
Das quiçás baixas expectativas, deu-se o feito. José Soudo foi autor de duas prestações, embora sem o selo rotundo e cingido que a exigência da afición carece, bastante condignas para com o seu percurso, divertindo e emocionando o público de Cuba.
Preocupou-se em lidar, na verdadeira acepção da palavra, medindo terrenos e procurando lograr as sortes com qualidade, sendo-lhe merecido o reconhecimento pelo esforçado labor.
O seu lote foi dissemelhante, contrastando com um Silva Herculano anovilhado e com génio, andarilho e que se atravessava; com um Cunhal Patrício sério, com fundo, nobre e a transmitir. O público, carinhosamente, apoiou o toureiro nas suas duas prestações e o repto foi superado.


O mais jovem da casa Moura andou empenhado perante as circunstâncias com que se deparou. O Herculano não rompeu, mas Miguel deu-lhe o conteúdo necessário. Recebeu dobrando-se em curto, para seguir uma linha simétrica de sortes que resultaram eficientes, destacando-se o segundo e terceiro curto. O Cunhal Patrício que fechou praça tinha presença, de bom tipo mas que se revelou 'gazapón', faltando-lhe 'fijeza' e prontidão. Miguel não logrou uma prestação regular, sofrendo toques e comprometendo em alguns momentos a concretização das sortes.


O 'vizinho' Grupo de Forcados Amadores de Beja encarou de forma decidida o desafio de pegar os seis toiros, e essa predisposição valeu um triunfo sério com um desfecho meritório e do qual devem haver positivas repercussões.

Embora com alguns ajustes e afinações de reparo, embora justificáveis e toleráveis para quem se inicia na arte da jaqueta de ramagens, na globalidade os desempenhos foram conseguidos e satisfatórios: Nuno Vitória abriu praça, com facilidade no primeiro encontro; Alexandre Rato pegou o segundo à 2ª tentativa, após ter retirado a cara na primeira; Thierry Gonçalves fechou com segurança a primeira parte com uma pega ao segundo intento, após o toiro ter desfeiteado já praticamente no seio do grupo a primeira tentativa; Diogo Morgado foi autor de uma tentativa vistosa e vibrante, em que o toiro arrancou com pata ocasionando uma reunião impactante, consumando com brilho ao primeiro intento; Mauro Lança pegou um Cunhal Patrício que partiu recto e não causou dificuldades, com destaque para o grupo; O consagrado João Fialho fechou com segurança e chave d'oiro a prestação do grupo de Beja, à primeira tentativa.

Em suma, uma tarde que se viu entretida, mas cujo fim de boca não marcou o paladar...

Pedro Guerreiro
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